Descrição:
Há milênios, os seres humanos modificam o ambiente para a produção de alimentos, moldando paisagens e influenciando processos ecológicos. Os agroecossistemas não são apenas áreas produtivas, mas também espaços onde processos ecológicos essenciais ocorrem, sustentando serviços ecossistêmicos fundamentais para a estabilidade do sistema e o bem-estar humano. Entre os processos naturais que sustentam os agroecossistemas, a polinização se destaca por sua relação direta com a reprodução de diversas espécies vegetais e, consequentemente, a produção agrícola. A diversidade de plantas com diferentes características influencia a composição, riqueza e a abundância de polinizadores, determinando a estabilidade das interações ecológicas. Este estudo teve como objetivo analisar como a diversidade vegetal em agroecossistemas interage e afeta a diversidade e a estrutura da comunidade de visitantes florais, na perspectiva de diversidade funcional e temporal. Investigamos como a diversidade ecológica (abundância, riqueza e atributos florais) e sociofuncional (usos) das plantas afetam a frequência de visitas e a riqueza de visitantes florais em sistemas agroflorestais (Capítulo 1). Para explorar a dinâmica dessas interações, utilizamos análises de redes ecológicas ao longo de um ano (Capítulo 2). Investigamos: (1) a estrutura da rede de interações, (2) o papel das espécies de visitantes florais nas redes de interações e (3) a variação sazonal na composição de espécies centrais e periféricas na organização modular da rede. Os resultados indicam que a riqueza de flores é o principal fator associado à diversidade de visitantes, superando outros componentes ecológicos, como abundância e diversidade funcional. Ao analisar grupos específicos de visitantes florais, observamos que a diversidade funcional socioecológica teve maior efeito do que a diversidade funcional das flores, com impacto na frequência de visitas de abelhas, principais polinizadores dos agroecossistemas. As redes agroflorestais mantiveram um padrão modular e especializado, sem mudanças significativas no papel dos principais grupos de visitantes florais entre as estações. No entanto, a composição das espécies-chave variou sazonalmente, com abelhas desempenhando papéis centrais, ao lado de árvores frutíferas de floração em massa e herbáceas espontâneas, que se mostraram fundamentais para a conectividade e estabilidade das interações. Os sistemas agroflorestais analisados apresentaram padrões estruturais e funções das espécies comparáveis aos de ecossistemas naturais, contrastando com a visão predominante de que a agricultura simplifica as interações ecológicas. Isso sugere que agroflorestas podem atuar na estabilidade da comunidade de visitantes florais ao longo do tempo e também na qualidade e estrutura da paisagem mantendo populações fontes onde a homogeneização agrícola frequentemente compromete a sobrevivência desses organismos.