Descrição:
Os quadros, tabelas e o gráfico presentes no arquivo sintetizam décadas de registros do 11º Cartório de Registro de Imóveis de São Paulo e evidenciam o que denominamos "legado racial fundiário".
De forma geral, os dados documentam a transição histórica de uma área rural sob domínio de descendentes europeus para uma periferia urbana densamente ocupada pela população negra a partir da década de 1960.
Esta descrição geral dos dados pode ser compreendida especificamente por meio de três eixos que conectam os números à tese da pesquisa:
1- a Genealogia da Terra e a Herança Colonial: os quadros detalham a cronologia do domínio das áreas dos loteamentos Parque Grajaú e Jardim Reimberg. Os dados expõem mecanismos de herança e transações de compra e venda de terras, realizadas entre 1917 e 1954, capazes de comprovar que o caráter colonial da posse da terra foi preservado e capitalizado por décadas antes de ser loteado para os trabalhadores migrantes.
2- a atuação do Grande Capital e Infraestrutura: as tabelas registram operações massivas de acumulação de terras pela Companhia Light, que adquiriu milhões de metros quadrados (especialmente entre 1926 e 1949). Esses dados servem para demonstrar como o capital corporativo capturou a valorização fundiária gerada por obras públicas de retificação de rios e geração de energia, preparando o terreno para a criação de polos como o Loteamento Industrial Jurubatuba.
3- a Engenharia do Loteamento Periférico: o gráfico mapeia a ascensão da Imobiliária Grajaú no período de 1961 a 1965, mostrando o crescimento vertiginoso de seu capital social e sua vasta capilaridade na Zona Sul. A tabela mostra ainda o total de nove loteamentos realizados pela imobiliária que totalizam mais de 2 milhões de metros quadrados. Esses dados materializam o processo de "periferização", onde agentes imobiliários intermediaram a venda de lotes (muitas vezes sem infraestrutura) para uma população negra superexplorada, transformando a exclusão racial em um negócio rentável.
Em suma, os dados contidos no arquivo representam uma evidência concreta dos mecanismos de permanência do racismo estrutural sob a perspectiva do desenvolvimento econômico urbano e dos estudos urbanos no Brasil.