Descrição:
Esta tese inicia-se com a representação metafórica da morte da autora, simbolizando um auto sacrifício no gesto em cena e inaugurando um percurso investigativo sobre o movimento na Eutonia. A partir desse marco, exploram-se processos corporais vivenciados e refletidos por meio da metodologia da Prática como Pesquisa.
O texto é estruturado em Atos investigativos que desdobram a linguagem dos Gestos,
revelando os processos corporais em suas partes determinantes — as materialidades do corpo — e configurando uma metalinguagem que expõe os caminhos percorridos. Os Gestos tornam- se, assim, uma tradução do corpo em texto, com discussões teóricas fundamentadas na Eutonia.
A pele e os ossos constituem os princípios norteadores desta investigação. Suas
materialidades, trabalhadas na Eutonia, revelam o corpo como núcleo da subjetividade a partir da autorregulação. Ambos convidam o leitor a testemunhar processos de tecimento paulatino de uma nova consciência tônica — física, emocional e simbólica — que se revela em camadas por meio da oscilação.
A pele externa, relacionada à individuação, identidade e sintomas — aquilo que se
manifesta como “rostidade” — é preterida em favor da pele interna, que propõe uma
consciência de si construída por perceptos metonímicos. Na consciência do esqueleto reside o espírito: o desejo que pulsa ao avesso da pele. A partir dessa nova consciência da pele e dos ossos, instaura-se uma relação em Duplo.
Simultaneamente, investiga-se a linguagem do gesto na Eutonia, que transita entre
oscilações tônicas e dinâmicas metafórica-metonímicas. O Duplo configura-se, assim, como fenômeno da linguagem do corpo em constante oscilação.
O texto também transita na metáfora e metonímia, a partir do conceito do psicanalista
Guy Rosolato, refletindo o Duplo da experiência vivida no corpo da autora na criação do estudo de movimentos intitulado Medusa. A autora expõe as suas metonímias corporais em relação às experiências sensíveis que a atravessam, abordando o Gesto e o Duplo como elementos intrinsecamente ligados à materialidade do corpo e à dinâmica das relações. Trata-se de uma tentativa de dançar a própria linguagem, dissolvendo a metáfora de si mesma e, através de seus duplos metonímicos, realizando momentaneamente o sacrifício da metáfora: um auto sacrifício. Contudo, tal sacrifício não resulta em aniquilamento, mas em transmutação. A metáfora do Duplo não desaparece, mas se refaz na fisicalidade da pele, dos ossos e do gesto.
A presença do corpo — simultaneamente concreta e fugidia — tensiona a metáfora até que ela se torne matéria viva, ressoando nos estados de presença e ausência que constituem a cena. Na prática da Eutonia, essa duplicação revela-se na tensão entre o gesto expresso e seu retorno. O corpo, ao se autorregular na oscilação tônica e ao propor movimentos dentro da oscilação metafórica-metonímica, torna-se espaço de dobra, um campo onde o Duplo se inscreve não apenas como conceito, mas como experiência encarnada, tecida camada por camada.