Descrição:
Introdução: O glaucoma é uma neuropatia óptica multifatorial caracterizada pela
degeneração progressiva das células ganglionares da retina e seus axônios,
resultando em aumento da escavação do disco óptico, defeitos na camada de
fibras nervosas peripapilar (CFNpp) e perda irreversível do campo visual. A
pressão intraocular (PIO) elevada é o principal fator de risco modificável, sendo
a redução da PIO o foco do tratamento. A trabeculotomia transluminal assistida
por gonioscopia (GATT) é um procedimento minimamente invasivo de glaucoma
(MIGS), que evita complicações associadas a cirurgias mais invasivas e pode
ser uma opção economicamente viável, especialmente em países em
desenvolvimento. Objetivos: Primeiro estudo: Investigar a eficácia hipotensora,
o perfil de segurança e os preditores de sucesso do GATT isolado e combinado
a facoemulsificação com implante de lente intraocular (FACOGATT) em
pacientes com glaucoma de ângulo aberto (GAA). Segundo artigo: Avaliar o
impacto do GATT e FACOGATT nos parâmetros de variação de PIO a longo
prazo em olhos com GAA. Metodologia: Primeiro estudo: Série de casos
intervencionista, não comparativa, incluindo pacientes com mais de 18 anos com
GAA (primário ou secundário) que foram submetidos a GATT ou FACOGATT
entre janeiro de 2018 e janeiro de 2020. Todas as cirurgias foram realizadas por
um dos autores (B.M.F.) em um único centro (Hospital Universitário Onofre
Lopes), de forma padronizada. Sucesso foi definido como PIO <15mmHg. Além
disso, exigiu-se uma redução de PIO de pelo menos 20% ou uma redução de
pelo menos 2 medicamentos para glaucoma, em comparação com a linha de
base. O insucesso cirúrgico foi determinado sempre que esses critérios não
foram cumpridos em 2 visitas consecutivas de acompanhamento, na presença
de perda de percepção luminosa ou se reoperações para redução de PIO foram
necessárias. Os desfechos secundários foram preditores de sucesso e
parâmetros de segurança. Segundo Estudo - Estudo unicêntrico e retrospectivo,
com acompanhamento de 24 meses, avaliando a variação da PIO em longo
prazo em pacientes com GAA não controlados clinicamente submetidos ao GATT
ou FACOGATT. Os principais parâmetros avaliados foram a PIO média a longo
prazo, pico de PIO (definido como a maior PIO medida durante o seguimento),
flutuação da PIO (definida como o desvio padrão da média do indivíduo),
variação positiva média da PIO (calculada como a diferença entre a média dos
picos de PIO e a média das PIOs) e variação positiva sustentada da PIO
clinicamente significativa (definida como a porcentagem de pacientes que
apresentaram PIO > 15 mmHg em 2 visitas consecutivas). Resultados: Primeiro
estudo: Um total de 73 olhos (GATT n=38; FACOGATT n=35) de 58 pacientes
com média de idade de 54,8 ± 11,6 anos foi incluído no estudo. No geral, após
12 meses de acompanhamento, a PIO média foi reduzida de 24,9 ± 8,5 para 12,1
± 2,1 mmHg (P < 0,001). O número médio de medicamentos para glaucoma foi
reduzido de 3,5 ± 0,7 para 1,2 ± 1,2 (P < 0,001). A taxa de sucesso foi de 87%
aos 12 meses, sem diferenças significativas entre os olhos do grupo GATT (85%)
e do grupo FACOGATT (91%) (P = 0,330). A idade foi o único fator
significativamente associado ao sucesso cirúrgico (razão de risco = 1,35; P =
0,012; após ajuste para PIO pré-operatória e número de medicamentos para
glaucoma). Pacientes com mais de 60 anos apresentaram uma chance
significativamente maior de falha (razão de risco = 10,96; P = 0,026) em
8 comparação com aqueles com menos de 60 anos. A complicação pós-operatória
mais comum foi hipema transitório (39%; duração mediana de 5 dias). Nenhum
evento adverso que ameaçasse a visão foi documentado. Segundo estudo: Um
total de 169 olhos de 169 pacientes foi incluído no estudo (grupo GATT = 101
pacientes; grupo FACOGATT = 68 pacientes). A média da PIO a longo prazo
(11,2 ± 2,0 mmHg vs 12,0 ± 1,8 mmHg; p = 0,01), o pico médio da PIO a longo
prazo (11,8 ± 3,5 mmHg vs 12,9 ± 2,6 mmHg; p = 0,03) e a média de flutuação
da PIO (1,2 ± 1,8 mmHg vs 1,0 ± 3,7 mmHg; p = 0,01) foram menores no grupo
FACOGATT em comparação ao grupo GATT isolado. Além disso, a variação
positiva média da PIO foi de 0,79 ± 1,64 mmHg. Por fim, apenas 6,5% dos
pacientes apresentaram uma variação positiva clinicamente significativa e
sustentada da PIO, e a PIO foi > 15 mmHg em 5,9% das visitas de
acompanhamento. Conclusões: Primeiro estudo – Os resultados de 1 ano
sugerem que o GATT é um procedimento alternativo eficaz para o manejo do
GAA, com complicações pós-operatórias mínimas. O fato de que pacientes mais
velhos tiveram um risco aumentado de falha, independentemente da PIO basal
e do número de medicamentos pré-operatórios, deve ser considerado ao
gerenciar esses casos. Segundo estudo – Pacientes com GAA clinicamente não
controlados submetidos a GATT e FACOGATT não apenas atingiram baixas
PIOs médias, mas também apresentaram padrões de PIO altamente estáveis
durante um período de acompanhamento de 24 meses. Nossos resultados
fornecem evidências adicionais que apoiam as cirurgias GATT e FACOGATT
como opções viáveis para o tratamento de pacientes com GAA não controlados
clinicamente que necessitam de PIOs baixas e estáveis.